Modelos antigos de rede não se sustentam no mundo atual

Publicado porluanafurtado on qui, 24/11/2016 - 10:30 in

Raquel Torres

O Encontro Nacional 2016 da RedEscola seguiu hoje com uma mesa especial sobre ‘Experiências de ações colaborativas e de trabalho em rede’. Para conversar com os participantes, foram convidados Nilton Bahlis, da ENSP/Fiocruz, e Cláudia Langes, diretora da Escola Técnica de Blumenau e representante da Região Sul da Rede de Escolas Técnicas do SUS (RET-SUS).
 
 
Cláudia falou sobre a constituição e o funcionamento das Escolas técnicas e da própria RET-SUS: as Escolas são instituições públicas criadas para atender demandas locais de formação de trabalhadores que já atuam no serviços de saúde, e a RET-SUS é uma rede governamental criada pelo Ministério da Saúde, pelo conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).
 
A professora contou também que a trajetória das Escolas começou nos anos 1980, com o projeto Larga Escala, que realizava a formação de trabalhadores de nível médio e fundamental na área da saúde. Em seguida, os anos 1990 trouxeram o Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área da Enfermagem (Profae) e, mais recentemente, nos anos 2000, teve início o Programa de Formação de Profissionais de Nível Médio para a Saúde (Profaps). A RET-SUS, formada por essas Escolas e outras que foram sendo construídas, foi fundada no ano 2000 e hoje conta com 41 instituições. “Nosso diferencial é o foco, que está na formação profissional no nível médio e na qualificação. Nosso público é basicamente o trabalhador de nível médio”, explicou Cláudia.
 
Ela falou sobre a importância de que os cursos sejam descentralizados, que aconteçam próximos à área de atuação dos trabalhadores — “A Escola vai até os municípios, e não o contrário” — e que os currículos sejam adequados ao contexto regional. Além disso, a integração ensino-serviço é adotada como princípio educativo. “E, a partir da portaria 1996/2007, passamos a ter novos espaços de articulação com a rede de serviço. Temos assento na Comissão Intergestora Regional e nas Comissões Permanentes de Integração Ensino e Serviço, o que tem ajudado as Escolas”, observou.
 
Nilton Bahlis, que coordena o Núcleo de Experimentação de Tecnologias Interativas (Next/Fiocruz), falou sobre a relação entre essas tecnologias e o trabalho em rede. De acordo com ele, vivemos hoje em um mundo de constantes e fortes mudanças e só é possível pensar nesse mundo ‘entrando’ realmente nele. “É como quando os portugueses chegaram ao Brasil. Eles não podiam sentar e planejar como iriam atuar, porque estavam diante do completo desconhecido. Conosco, acontece o mesmo”, comparou.
 
 
Ele apresentou um diagrama que mostra três tipos diferentes de redes. No primeiro há um ponto central que se liga a todos os demais. “As estruturas antigas eram assim, mas em dado momento começam a ter problemas, pois o centro não consegue mais administrar uma rede crescente”, explicou Nilton, dizendo que, assim, surgiu um novo tipo: “Este segundo modelo não é nada mais que uma reprodução do primeiro, mas com centros mediadores. A diferença é que, no primeiro, se o centro cai, a rede cai. No segundo, há outros centros que podem sustentar a rede. Porém, ela também chega a um limite em que os centros não podem mais sustentá-la e, além disso, a comunicação entre os pontos é limitada”. O terceiro modelo tem uma tipologia diferente: são os mesmos pontos, mas com outro tipo de ligação, o que gera uma dinâmica distinta. “Os pontos não dependem de intermediários, podem se comunicar livremente. Nos dias de hoje, o mediador — o centro — perdeu a habilidade de operar na rede. Por mais que as pessoas possam querer se organizar das formas antigas, elas já não conseguem — não funciona”, disse Nilton.
 
Para o pesquisador, a construção de estratégias de educação em rede não pode se restringir ao uso irrestrito e acrítico das tecnologias. “Quando começamos a trilhar o caminho da EaD [Educação a Distância], vimos que ela estava reproduzindo a mesma lógica da escola tradicional. Mas pior, porque não tinha a figura do professor, que não deixa a educação bancária [como se referia a ela Paulo Freire] ficar tão pobre. Na EaD não havia sequer essa figura. Por isso começamos a pensar mudanças nas práticas educativas para compreendermos o que é educação em rede”, afirmou.
 
Ele disse que, embora as pessoas tendam a acreditar que é preciso ter um chefe o tempo todo para que as coisas deem certo, a realidade mostra o contrário. Ele deu dois exemplos que sustentam sua posição. O primeiro é o da observação de crianças brincando na praia e construindo coletivamente um castelo de areia, sem que ninguém precise dizer a cada uma o que deve fazer. O segundo é o de bactérias que formam o musgo. São organismos unicelulares que, em condições desfavoráveis, se unem e formam uma planta, pluricelular, sem que seja necessário um guia — a única comunicação que acontece é a baseada em sua experiência genética. “Não tem cabeça, planejamento, concepção. Na verdade, os seres humanos adultos são os únicos que resistem a fazer as coisas dessa maneira”, disse. O professor trouxe ainda uma reflexão para ser feita pelos participantes: “Será que, para o trabalho de formação em rede, é suficiente descentralizar? Ou uma rede de formação deveria ter o papel de gerar dinâmicas comuns, de fazer com que as experiências se toquem?”
 
A esse questionamento uniram-se outros, durante o debate que se seguiu. Uma das grandes indagações foi sobre como a tecnologia pode ser aliada a outros dispositivos para que os seres humanos sintam realmente vontade de trabalhar juntos. Porém, para Nilton, a vontade de trabalhar junto vem da própria necessidade. “Mesmo no caso das bactérias. Cada uma delas descobriu, por sua história genética, que a união possibilitava a sobrevivência. A vontade de estar junto surge porque se produz melhor assim, porque se tem melhores resultados assim ou porque simplesmente não se sobrevive de outra maneira. E a comunicação é direta, fluida, sequer passa pelo pensamento”, defendeu.
 
Cláudia Langes lamentou que, muitas vezes, as Escolas tenham consciência da necessidade de promover um trabalho em rede como esse, mas que têm medo. “Precisamos deixar esses medos de lado, nos conhecer e nos reconhecer enquanto parceiros, compartilhar dores e experiências. Nós sabemos como lidar com informação e conhecimento. Temos que ‘meter a cara’, fazer acontecer”, concluiu a diretora.