Metodologias ativas: um meio, não um fim

Publicado porluanafurtado on qua, 23/11/2016 - 15:30 in
 
 
Ao propor uma mesa com o tema ‘Dialogando sobre ideias e práticas pedagógicas na formação em Saúde Pública’, a organização do Encontro Nacional 2016 da RedEscola queria discutir criticamente o uso de determinadas metolodogias que, segundo Rosa Souza, coordenadora da Secretaria Técnica Executiva, têm sido vistas como uma cura para todos os males. “O que nos instiga é perceber que atualmente o uso das metodologias ativas de aprendizagem parecem uma panaceia. É como se quem não as utilizasse não fosse moderno. Mas nós queremos pensar melhor sobre isso e entender de onde vêm tais metodologias, o que são elas, a que servem e para quem servem”, disse Rosa.
 
 
Para orientar o debate, foram convidadas três professoras-pesquisadoras: Lais de Souza, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Marise Ramos, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) e Fátima Plein, da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul (ESP-RS).
 
Lais, que se declarou grande fã das metodologias ativas, fez uma breve apresentação em que evidenciou as suas principais características, em oposição às da pedagogia tradicional. Uma das mais gritantes é que o centro do processo deixa de ser o professor e passa a ser o aluno: “Na pedagogia tradicional, tem-se um currículo escolhido por alguém que decide o que é importante ensinar; há professores, que não necessariamente decidiram o currículo, mas o executam através das disciplinas. Elas, por sua vez, têm conteúdos que não precisam dialogar uns com os outros. E o aluno sequer aparece no processo — ele só participa passivamente. Já nas metodologias ativas, é justamente ele quem está no centro. O conteúdo fica gravitando ao redor dele, de acordo com suas necessidades, e o professor gravita ao redor de conteúdos e alunos, fazendo a mediação entre eles”, resumiu.
 
As metodologias ativas são, segundo Lais, adequadas para os dias de hoje, em que muitas vezes falta motivação aos alunos. “É comum eles passarem a aula inteira no whatsapp e no facebook, numa postura passiva. E essas metodologias são ancoradas na provocação aos alunos, que os instiga, motiva, cria interesse”, afirmou. Outra característica que ajuda a gerar envolvimento é a valorização do conhecimento prévio a respeito de qualquer temática. “O grande segredo é a produção de encantamento, como lembra o poeta da nossa terra, Manoel de Barros. Diz ele: ‘Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós’. Se provocarmos mais, talvez consigamos deslocar mais gente”, disse Lais.
 
Marise Ramos falou sobre as origens das metodologias ativas, mas relacionando-as a correntes pedagógicas. “Se discutirmos metodologias sem pedagogia, vamos discutir apenas o meio. Mas a formação se produz por meio de uma concepção de sujeito, de ser humano, de sociedade, e é preciso pensar nisso”. Ela tratou de algumas diferenças entre a pedagogia tradicional, a Escola Nova de John Dewey, a pedagogia freireana e a Histórico-Crítica, desenvolvida por Dermeval Saviani, com inspiração gramsciana.
 
 
De acordo com a professora, o ‘pai’ da pedagogia, Johann Friedrich Herbart, considerava que a finalidade da formação era transmitir a tradição de determinada sociedade — seja a cultura, seja o conhecimento científico — para suas novas gerações. Assim, o professor era a figura que carregava a tradição em si e tinha a responsabilidade de passá-la adiante. O processo era então focado no ensino, o que explica a centralidade do professor. “Havia o pressuposto de que os educandos não carregavam ainda nenhuma tradição, precisando, portanto, ser ensinados diretivamente”, explicou Marise. Ela conta que uma grande virada se deu a partir dos estudos de Dewey. “É a partir daí que a questão da atividade aparece de forma intencional, como uma dimensão do processo pedagógico. Essa ideia está associada à compreensão de que o ser humano é um ser de experiências”, disse.
 
Marise lembrou também que a visão de Paulo Freire era uma apropriação dessas metodologias, com crítica e compromisso para com os oprimidos. “Freire toma o sentido da atividade e o reconstrói para voltar-se ao interesse dos oprimidos. E ele também parte de um princípio fundamental para o desenvolvimento da aprendizagem, que é a problematização”, disse, afirmando que é importante se perguntar o que se problematiza em cada uma das correntes. “Na pedagogia tradicional, nada se problematiza. Na Escola Nova, as situações são problematizadas. Em Paulo Freire, problematiza-se a condição do oprimido. E, com a Pedagogia Histórico-Crítica de Saviani, é problematizada a prática social”. Não se trata de problematizar tudo, mas de recortar aquilo que a realidade exige problematizar: “No nosso caso, problematizamos o processo de formação. Devemos nos perguntar: formar quem, onde, para quê?”, explicou Marise.
 
Em relação ao papel do professor, ela afirmou que, se na pedagogia tradicional ele é o centro, na Escola Nova e na pedagogia freireana ele assume a posição de mediação mas, na Pedagogia Histórico-Crítica, é mais que um mediador. “É a pessoa que, em relação à prática social, já acumulou um conjunto de conhecimentos que a coloca a na condição legítima de direcionar o processo de ensino-aprendizagem. Não para manter os estudantes distantes, mas, ao contrário, para que todos cheguem ao seu patamar de compreensão da realidade”.
 
 
Fátima Plein disse que a ESP-RS se utiliza de diferentes metodologias ativas e apresentou uma nova ideia: a de que é interessante formar sujeitos que não sejam autônomos — pois não se bastam a si mesmos — mas autores. “No processo de autoria, reconhecemos um sujeito que só o é na relação com o outro, mas que vai poder criar sua visão de mundo e assiná-la. As metodologias ativas são importantes para isso”, afirmou. Ela disse também que, para a ESP-RJ, tais metodologias, a concepção de sujeito e de autoria e o exercício político e histórico estão todos totalmente amarrados. “Hoje estamos vivando o desmonte de nossa Escola e do nosso estado. E não poderíamos deixar essa discussão do lado de fora das salas de aula. Ela está dentro e fora, os estudantes estão conosco dentro e fora. Isso também é metodologia ativa. Era disso que Freire falava quando dizia que o importante não era se ‘Eva viu o ovo’, mas sim pensar o porquê do ovo, o porquê do mundo, o porquê de estarmos aqui, que espaço ocupamos. Nós estamos tentando ocupar tudo quanto seja possível”, desabafou.