Qualidade na Formação da Atenção Básica: compartilhar experiências para melhorar os processos

Publicado porluanafurtado on seg, 02/05/2016 - 11:33 in

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qualidade, SAS
Pensar junto, dialogar, colocar em sintonia diferentes visões de mundo – a dinâmica da oficina sobre Qualidade na Formação da Atenção Básica, realizada durante o 12º Congresso da Rede Unida, em Campo Grande (MS), foi totalmente aberta e gerou um ambiente mais que propício para que nascessem ótimas ideias. Foi o que aconteceu: os participantes, que somavam integrantes do Grupo de Condução da REDESCOLA, convidados das áreas da Educação e da Atenção Básica e pessoas que se integraram à Oficina movidos pelo desejo de discutir o assunto, começaram a desenhar as mostras regionais de experiências na área, que podem se tornar uma forma diferente – e eficiente – para aprimorar os processos formativos.
 
 
O ponto de partida foi uma reflexão sobre as categorias conceituais em que o tema se concentra: qualidade, inclusão, agir comunicativo e gestão
 
Os participantes entenderam que o termo ‘qualidade’, na posição que ocupa no título da oficina, acaba por adjetivar a expressão ‘formação na Atenção Básica’, provendo um sentido de inclusão de pessoas. A ‘inclusão’, por sua vez, foi entendida de uma forma mais profunda que a usual. A ideia corrente é a de que há um dispositivo político com ‘dentros’ e ‘foras’, e a inclusão consistiria em trazer sujeitos de fora para dentro de certos espaços, políticas e direitos. Mas, na oficina, os participantes foram além: eles concluíram que, numa discussão sobre a inclusão como uma face da qualidade da formação, deve-se pensar também em termos de conexões, relações e direções.
 
‘Incluir pessoas’, assim, pressupõe construir processos formativos que não sejam unicamente desenhados pelas escolas de saúde e ‘transmitidos’ para os profissionais, mas que se organizem de maneira horizontal e não-hierarquizada. A inclusão deve se dar por dentro das bases e dos processos de formação, implicando um movimento de repensar determinadas epistemologias e medidas político-institucionais. 
 
 
Ainda falando sobre inclusão, foi pontuada a necessidade de se incluir os princípios da Atenção Básica e as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) na formação dos trabalhadores. Porém, esta inclusão não deve ser rasa, e sim, integrada: deve-se levar em conta que os níveis de atenção precisam estar integrados e articulados, bem como os profissionais que trabalham em cada nível. Isso porque o usuário ‘anda’ dentro do sistema: ele entra pela Atenção Básica, pode ser encaminhado para a média complexidade e, eventualmente, pode precisar da alta – mas sempre retorna à Atenção Básica, à sua equipe de referência territorialmente definida. 
 
Com essas reflexões, os participantes concluíram que qualidade e inclusão integral são projetos contínuos e continuados. Assim, a política de formação e qualificação deve ser para, na e da Atenção Básica, incluindo todos os atores.
 
Encontrando soluções
 
Nesse ponto, alguns questionamentos vieram à tona: sempre tendo em mente que o trabalho na saúde é multidisciplinar, como alcançar os trabalhadores que estão nos municípios, atuando na Atenção Básica? Como pensar – tem termos de formação para além das figuras do médico e do enfermeiro – as dificuldades e percalços nas universidades e escolas de saúde? Como romper com o modelo de formação médica que, hoje, é basicamente orientado pelo mercado e impacta negativamente o SUS?
 
E as perguntas acabaram apontando na direção de algumas soluções interessantes: será que a organização de mostras de experiências não pode ser um caminho que chegue até os municípios e os convide a expressarem suas vivências? As inovações tecnológicas e as novas ferramentas de comunicação digital não seriam instrumentos possíveis? Será que elas ajudariam a incluir pessoas?
 
Foi ressaltado que a discussão sobre a formação não pode se dissociar dos debates sobre qualidade, inclusão e conexão: trata-se de um ponto nevrálgico profundamente relacionado a ensino e serviço, a contextos de serviço e situações de prática. Isso faz com que sobressaiam tensionamentos – porque, conforme apontaram os participantes da oficina, o lugar de onde se parte e o lugar onde se situa influem no que é visto e produzido e na construção de bases de conhecimento. Nesse sentido, o próprio serviço é um espaço de produção de conhecimento: o aprendizado se dá pelo trabalho, num campo de práticas. 
 
Esboçando as mostras
 
Com essas discussões no pano de fundo, as mostras de experiências começaram a se esboçar. E novas perguntas surgiram: O que as mostras vão mostrar? Para quem? Onde? Quais os formatos possíveis?
 
 
A IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica, realizada em Brasília em 2014, foi lembrada como uma boa inspiração. Nela, o grande destaque foram os mais de quatro mil relatos de experiências das comunidades, e o processo todo foi muito interessante e inovador: a inscrição da experiências foi feita em uma plataforma interativa na internet e, antecedendo a Mostra, houve um processo de discussão virtual sobre elas. Assim, as narrativas – compartilhadas e comentadas – serviram como ponto inicial para o aperfeiçoamento das práticas.
 
Os participantes da Oficina começaram a pensar um espaço virtual semelhante. Com foco nas experiências de formação, os profissionais de saúde poderiam ‘mostrar’ o que quisessem, a partir de suportes tão diversos como fotografias, desenhos e materiais audiovisuais. A ideia é que se estabeleça um processo de curadoria, que se daria de duas formas distintas: por um lado, pode haver um corpo de curadores ‘oficiais’; por outro lado e paralelamente, as trocas e diálogos podem se estabelecer de maneira livre e voluntária, independentemente dos organizadores. A curadoria teria, assim, o papel produzir uma organicidade aos relatos que comporiam as mostras regionais, organizadas principalmente pelas escolas e centros formadores e articuladas pela REDESCOLA. 
 
Ficou claro que a postagem de experiências não precisaria se encerrar após a realização das mostras. Ao contrário: o ideal é que seja mantido um fórum permanente para que as pessoas possam apresentar seu trabalho, refletir sobre ele e aperfeiçoá-lo. 
 
Algumas questões ainda devem ser pensadas para que a proposta dê certo. Uma delas é a necessidade de se pensar os dispositivos e instrumentos tecnológicos como uma forma de empoderamento, de apropriação de novas formas de comunicação e de produção de diferentes registros narrativos. Além disso, é necessário pensar como será feito o convite para os profissionais de saúde participarem, de forma que o processo inclua o maior número de trabalhadores nos mais diversos espaços de trabalho, não se restringindo às capitais e grandes centros urbanos.
 
Quando se concretizarem, essas ‘mostras sociotécnicas’ – porque incluem pessoas, organizações, dispositivos tecnológicos – vão significar a ativação de uma rede e a criação de uma esfera pública de debate. E, assim, têm tudo para melhorarem os processos formativos de maneira democrática, inclusiva e integrada.